quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Maldição do Tigre Capitulo 1


1
Kelsey

Eu me encontrava à beira de um precipício. Quer dizer, eu estava apenas na fila de uma agência de empregos temporários no Oregon, mas a sensação era a de me aproximar de um despenhadeiro. A infância, a escola e a ilusão de que a vida era boa e fácil tinham ficado para trás. À frente, o futuro se delineava: a faculdade, uma variedade de empregos de verão para custear os estudos e a alta probabilidade de uma vida solitária.
A fila avançava. Parecia que eu já estava esperando ali há horas, tentando garantir uma vaga para trabalhar durante o verão. Quando finalmente che­gou a minha vez, aproximei-me da mesa de uma funcionária cansada e entediada, que falava ao telefone. A mulher fez um gesto para que eu me sentasse. Depois que ela desligou, entreguei-lhe alguns formulários e ela me­canicamente deu início à entrevista:
-  Nome, por favor.
-  Kelsey. Kelsey Hayes.
-  Idade?
-  Dezessete, quase 18. Meu aniversário está chegando.
Ela carimbou os formulários.
-  Já completou o ensino médio?
-  Já. A formatura foi há duas semanas. Pretendo estudar na Chemeketa no próximo semestre.
-  Nome dos pais?
-  Madison e Joshua Hayes, mas meus tutores são Sarah e Michael Neilson.
-  Tutores?
Lá vamos nós outra vez, pensei. Por algum motivo, explicar a minha vida nunca ficava mais fácil.
-  Sim. Meus pais estão... mortos. Morreram em um acidente de carro quando eu estava no primeiro ano do ensino médio.
Ela se inclinou sobre alguns papéis e escreveu por um longo tempo. Fiz uma careta, me perguntando o que ela poderia estar escrevendo.
-  Srta. Hayes, gosta de animais?
-  Claro. É... eu sei como alimentá-los... - Existe alguém mais sem jeito do que eu? Ótima maneira de não conseguir um emprego. Pigarreei. - Quero dizer, claro, eu adoro animais.
A mulher não pareceu nem um pouco interessada na minha resposta e me entregou o anúncio de um emprego.

PRECISA-SE DE TRABALHADOR TEMPORÁRIO PARA APENAS DUAS SEMANAS
ATRIBUIÇÕES: VENDA DE INGRESSOS, ALIMENTAÇÃO DOS ANIMAIS E LIMPEZA DEPOIS DAS APRESENTAÇÕES.
Observação: Como o tigre e os cães precisam de cuidados 24 horas por dia, fornecemos alojamento e refeições.

O emprego era no Circo Maurizio, um pequeno circo montado no parque de exposições. Eu me lembrei de que ganhara um cupom de desconto para ele no mercado e até havia pensado em me oferecer para levar os filhos dos meus pais adotivos, Rebecca, de 6 anos, e Samuel, de 4, para que Sarah e Mike tivessem algum tempo a sós. Mas acabei perdendo o cupom e esque­cendo o assunto.
-  E então: quer o emprego ou não? - perguntou a mulher, impaciente.
-  Um tigre, é? Parece interessante! Tem elefantes também? Porque reco­lher cocô de elefante seria um pouco demais.
Ri baixinho de minha piada, mas a mulher não fez mais do que esboçar um sorriso sem graça. Como eu não tinha outras opções, disse a ela que aceitava. Ela me deu um cartão com um endereço e me instruiu a compare­cer lá às seis da manhã.
-  Eles precisam de mim às seis da manhã?
A funcionária simplesmente me olhou e gritou "Próximo!" para a fila atrás de mim.
No que eu fui me meter?, pensei enquanto entrava no carro emprestado de Sarah e seguia para casa. Suspirei. Podia ser pior. Eu poderia ter que fritar hambúrgueres. Circos são divertidos. Só espero que não haja elefantes.
Eu gostava de morar com Sarah e Mike. Eles me davam muito mais liber­dade do que os pais da maioria dos outros adolescentes e acho que existia um respeito saudável entre nós - pelo menos tanto quanto os adultos podem respeitar uma garota de 17 anos. Eu ajudava a cuidar das crianças e não me metia em confusão. Não era o mesmo que viver com meus pais, mas ainda éramos uma espécie de família.
Estacionei o carro com cuidado na garagem, entrei em casa e encontrei Sarah atacando uma tigela com uma colher de pau. Deixei a bolsa em uma cadeira e fui pegar um copo de água.
-  Preparando biscoitos vegan outra vez? Qual é a ocasião especial? - per­guntei.
Sarah enfiava a colher de pau na massa espessa sem parar, como se a co­lher fosse um furador de gelo.
-  É a vez de Sammy levar o lanche para os amiguinhos.
Reprimi uma risada tossindo.
Ela me encarou, estreitando os olhos.
-  Kelsey Hayes, só porque sua mãe fazia o melhor cookie do mundo não significa que eu não possa fazer um lanche decente.
-  Não é da sua habilidade que eu duvido, é dos seus ingredientes - expli­quei, pegando um jarro de água. - Leite de soja, linhaça, proteína em pó e agave. Fico surpresa de você não colocar papel reciclado nessas coisas. Cadê o chocolate?
-  Às vezes eu uso alfarroba.
-  Alfarroba não é chocolate. Tem gosto de giz marrom. Se é para fazer biscoitos, você devia tentar...
-  Já sei. Já sei. Biscoito de abóbora com gotas de chocolate ou biscoito de chocolate com manteiga de amendoim. Essas coisas fazem muito mal, Kel­sey - disse ela com um suspiro.
-  Mas são tão gostosas.
Observei Sarah lamber um dedo e continuei:
-  Por falar nisso, consegui um emprego. Vou cuidar da limpeza e dar co­mida aos animais em um circo. Fica no parque de exposições.
-  Que bom! Parece que vai ser uma ótima experiência - animou-se Sarah. - Que tipo de animais vai alimentar?
-  Cães, principalmente. E acho que tem um tigre. Mas não vou precisar fazer nada perigoso. Tenho certeza de que eles contratam profissionais para isso. O problema é que o turno começa supercedo, por isso dormirei lá pelas próximas duas semanas.
-  Hum - Sarah fez uma pausa. - Bem, se precisar de nós, é só ligar. Você se importa de tirar a couve-de-bruxelas a la "papel reciclado" do forno?
Pousei a travessa fedorenta no centro da mesa enquanto ela colocava seu tabuleiro de biscoitos no forno e chamava as crianças para o jantar. Mike entrou, largou a pasta e beijou a mulher no rosto.
-  Que cheiro é esse? - perguntou ele, desconfiado.
-  Couve-de-bruxelas - respondi.
-  E fiz biscoitos para os amiguinhos de Sammy - anunciou Sarah, orgu­lhosa. - Vou separar o melhor para você.
Mike me dirigiu um olhar de cumplicidade que Sarah não deixou passar. Ela o acertou na coxa com o pano de prato.
-  Se você e Kelsey ficarem se comportando desse jeito, vão arrumar a cozinha.
-  Ah, querida. Não fique zangada.
Ele tornou a beijar Sarah e a abraçou, fazendo o possível para se livrar da tarefa.
Achei que essa fosse minha deixa para sair. Enquanto eu escapava sorra­teiramente da cozinha, ouvi Sarah dar uma risadinha.
Eu queria que um dia um cara tentasse se livrar da louça comigo da mesma forma, pensei e sorri.
Aparentemente, Mike negociou bem, pois ficou com a tarefa de pôr as crianças na cama em vez de arrumar a cozinha. A louça sobrou para mim. Eu não me importei, mas, assim que acabei, decidi que era hora de ir para a cama também. Seis da manhã era cedo demais.
Em silêncio, subi as escadas para o meu quarto. Era um espaço pequeno e aconchegante, com uma cama de solteiro, uma cômoda com espelho, uma mesa para o meu computador e para os deveres de casa, um armário, minhas roupas, meus livros, uma cesta de fitas de cabelo coloridas e a colcha de re­talhos da minha avó.
Minha avó fez aquela colcha quando eu era pequena. Apesar de ser muito nova, eu me lembro de vê-la costurando os retalhos, sempre usando o dedal de metal. Tracei uma borboleta na colcha velha, puída nos cantos, recor­dando como eu havia roubado o dedal de sua caixa de costura uma noite só para senti-la perto de mim. Embora eu já fosse adolescente, ainda dormia com aquela colcha todas as noites.
Coloquei o pijama, desfiz a trança do cabelo e o escovei, pensando em como mamãe costumava fazer isso para mim enquanto conversávamos.
Enfiei-me debaixo das cobertas quentes, acertei o alarme para, argh, 4h30 e me perguntei o que eu poderia fazer com um tigre tão cedo assim e como eu sobreviveria ao circo confuso que já era a minha vida. Meu estômago roncou.
Olhei na mesinha de cabeceira as duas fotografias que mantinha ali. Uma era de nós três: mamãe, papai e eu, no ano-novo. Eu tinha acabado de fazer 12 anos. Meus cabelos castanhos compridos haviam sido enrolados, mas na foto aparecem lambidos porque eu dera um ataque para não usar o laquê. Eu sorria, apesar do reluzente aparelho nos dentes. Agora me sentia grata pelos dentes brancos e alinhados, mas naquela época eu odiava aquele aparelho com todas as minhas forças.
Toquei o vidro, pousando o polegar na imagem do meu rosto pálido. Eu sempre sonhara em ser esbelta, bronzeada, loura e de olhos azuis, mas tinha os mesmos olhos castanhos do meu pai e a tendência a engordar da minha mãe.
A outra era uma foto espontânea dos meus pais no dia do seu casamento. Via-se um lindo chafariz ao fundo, e eles eram jovens, felizes e sorriam um para o outro. Eu queria aquilo para mim um dia. Queria alguém que olhasse para mim daquela maneira.
Depois de virar de bruços e afofar o travesseiro debaixo da bochecha, adormeci pensando nos cookies da minha mãe.
Naquela noite, sonhei que estava sendo perseguida na selva e, quando me virei para olhar meu perseguidor, levei um susto ao ver um grande tigre. No sonho, eu ri e então me virei e corri mais depressa. O som de patas delicadas e macias me seguia, no mesmo ritmo do meu coração.

A Maldição do Tigre


PRÓLOGO
A Maldição

O prisioneiro estava com as mãos amarradas diante do corpo, cansado, subjugado e imundo, mas com uma postura altiva digna de sua herança indiana real. Seu captor, Lokesh, olhava-o com desdém, sentado em um trono dourado, luxuosamente esculpido. Pilares brancos e altos erguiam-se como sentinelas em torno do salão. Nem sequer um murmúrio de brisa da selva passava pelas cortinas transparentes. Tudo o que o prisioneiro podia ouvir era o tilintar rítmico dos anéis ornados com pedras preciosas de Lokesh batendo na lateral do trono dourado. Lokesh olhava-o de cima, os olhos estreitados, insolentes e triunfantes.
O homem preso era o príncipe de um reino indiano chamado Mujulaain. Oficialmente, seu título atual era Príncipe e Sumo Protetor do Império de Mujulaain, mas ele ainda preferia pensar em si mesmo apenas como o filho de seu pai.
O fato de Lokesh, o rajá de um pequeno reino vizinho chamado Bhreenam, ter sequestrado o príncipe não era tão surpreendente quanto saber quem se encontrava sentado ao lado de Lokesh: Yesubai, a filha do rajá e noiva do prisioneiro, e o irmão mais jovem do príncipe, Kishan. O cativo estudou os três, mas somente Lokesh sustentou seu olhar determinado. Sob a camisa, o amuleto de pedra do príncipe repousava frio sobre sua pele, enquanto a ira percorria-lhe o corpo.
O prisioneiro falou primeiro, lutando para manter longe de sua voz o sen­timento de traição:
-  Por que meu futuro pai me trata com tamanha falta de hospitalidade?
Indiferente, Lokesh fixou um sorriso deliberado em seu rosto.
-  Meu caro príncipe, você tem algo que eu desejo.
-  Nada que você pudesse querer justifica isto. Nossos reinos não estão prestes a se unir? Tudo o que tenho está à sua disposição. Você só precisava pedir. Por que fez isso?
Lokesh esfregou o maxilar, os olhos brilhando.
-  Planos mudam. Parece que seu irmão gostaria de tomar minha filha como noiva. Ele me prometeu certas recompensas se eu o ajudar a alcançar esse objetivo.
O príncipe voltou sua atenção para Yesubai, que, com o rosto ruborizado, exibia uma pose submissa e recatada, com a cabeça baixa. Esperava-se que seu casamento arranjado com a moça desse início a uma era de paz entre os dois reinos. Ele estivera ausente pelos últimos quatro meses, supervisio­nando operações militares numa região distante, e deixara ao irmão a in­cumbência de cuidar do reino.
Então Kishan estava cuidando de outras coisas além do reino.
O prisioneiro avançou, destemido, encarou Lokesh e o desafiou:
-  Você enganou a todos nós. É como uma cobra enrodilhada, escondida em um cesto esperando o momento de dar o bote.
Ele alargou o olhar para incluir o irmão e a noiva.
-  Vocês não percebem? Suas ações libertaram a víbora e nós fomos pica­dos. Seu veneno agora corre pelo nosso sangue, destruindo tudo.
Lokesh riu, desdenhoso, e falou:
-  Se você concordar em entregar sua parte do Amuleto de Damon, talvez eu o deixe viver.
-  Viver? Pensei que estivéssemos negociando minha noiva.
-  Receio que seus direitos de noivo tenham sido usurpados. Talvez eu não tenha sido claro. Seu irmão terá Yesubai.
O prisioneiro cerrou o maxilar e disse apenas:
-  Os exércitos do meu pai o destruirão se você me matar.
Lokesh riu.
-  Ele não destruirá a nova família de Kishan. Nós vamos apaziguar seu querido pai e informá-lo de que você foi vítima de um infeliz acidente.
O homem afagou a barba curta e então esclareceu:
-  Entenda que, mesmo que lhe permita viver, eu governarei ambos os rei­nos. - Lokesh sorriu. - Se me desafiar, serei obrigado a pegar sua parte do amuleto à força.
Kishan se inclinou na direção de Lokesh e protestou com firmeza:
-  Pensei que tivéssemos um acordo. Eu só lhe trouxe meu irmão porque você jurou que não o mataria! Apenas pegaria o amuleto.
Lokesh estendeu a mão rápido como uma cobra e agarrou o pulso de Kishan.
-  A essa altura você já deveria ter aprendido que eu pego o que eu quiser. Se preferir a visão de onde seu irmão se encontra, ficarei feliz em satisfazê-lo.
Kishan se remexeu na cadeira, mas manteve-se calado.
Lokesh prosseguiu:
-  Não quer? Muito bem, estou alterando nosso acordo anterior. Seu irmão será morto se não ceder aos meus desejos e você nunca se casará com minha filha, a menos que entregue sua parte do amuleto a mim também. Esse nosso acordo particular pode ser facilmente revogado e eu posso casar Yesubai com outro homem... um homem da minha escolha. Talvez um sultão velho lhe esfriasse o sangue. Se você quiser permanecer perto de Yesubai, terá que aprender a se submeter.
Lokesh comprimiu o pulso de Kishan até que ele estalou ruidosamente. Kishan não reagiu.
Flexionando os dedos e girando lentamente o pulso, Kishan se recostou, ergueu a mão para tocar o pedaço do amuleto, oculto sob sua camisa, e fez contato visual com o irmão. Uma mensagem silenciosa foi trocada entre eles.
Os irmãos lidariam um com o outro mais tarde, mas as atitudes de Lokesh significavam guerra e as necessidades do reino eram prioridade para ambos.
A obsessão subiu pelo pescoço de Lokesh, latejou em sua têmpora e se assentou atrás de seus olhos negros e peçonhentos. Aqueles mesmos olhos dissecaram o rosto do prisioneiro, sondando, avaliando-o em busca de fra­queza. Encolerizado, Lokesh pôs-se de pé num salto.
-  Que assim seja!
Ele puxou de sua túnica uma reluzente faca de cabo adornado com pedras preciosas e rudemente arrancou a manga do casaco jodhpuri do prisioneiro, antes branco, mas agora imundo. As cordas se enroscaram em seus pulsos e ele grunhiu de dor quando Lokesh correu-lhe a faca pelo braço. O corte foi fundo o bastante para que o sangue aflorasse, vertesse e pingasse no chão de ladrilhos.
Lokesh arrancou um talismã de madeira de seu pescoço e o colocou de­baixo do braço do prisioneiro. O sangue gotejou da faca para o amuleto e o símbolo ali gravado fulgurou com um vermelho abrasador antes de pulsar com uma luz branca estranha.
A luz disparou na direção do príncipe com dedos tateantes que perfura­ram seu peito e atravessaram-lhe todo o corpo, dilacerando-o. Embora fosse forte, ele não estava preparado para a dor. O prisioneiro gritou quando seu corpo de repente se inflamou com uma erupção que lhe queimava a pele. Ele desabou no chão.
Estendeu as mãos para se proteger, mas só conseguiu arranhar debilmente os ladrilhos brancos e frios do piso. O príncipe viu, indefeso, quando tanto Yesubai quanto seu irmão atacaram Lokesh, que empurrou ambos com vio­lência. Yesubai caiu no chão, batendo a cabeça com força no tablado sobre o qual se achava o trono. O príncipe tinha consciência de que o irmão estava ali perto, tomado pela tristeza à medida que a vida se esvaía do corpo mole de Yesubai. Em seguida, não teve mais consciência de nada que não fosse a dor.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Filho Do Éden - Livro 1 Prologo


LIVRO 1
HERDEIROS DE ATLÂNTIDA
PRÓLOGO
Interior do Brasil, dias atuais
PARA A MAIORIA DOS ANJOS, O GRANDE PROBLEMA DA TERRA NÃO É A
CORRUPÇÃO HUMANA OU A DEGRADAÇÃO SOCIAL. É O CHEIRO.
Levih e Urakin se acomodaram na mesa do restaurante, uma espelunca
à beira da estrada, nos fundos de um posto de gasolina
decadente, de paredes enegrecidas pela poluição dos caminhões e
janelas embaçadas com a gordura das frigideiras. Era noite e o
pavilhão estava agitado. Carreteiros, passageiros de ônibus e
funcionários de transportadoras comiam e bebiam, naquela que era
a última parada rodoviária em quilômetros. O chão, coberto de
marcas de óleo, escorregava a cada passo. No ar, o odor de
combustível se misturava ao fedor de urina, que escapava
intermitentemente do banheiro sem portas. Sob o balcão, sanduíches
e salgados eram expostos numa estufa gelada, atraindo insetos
ao banquete noturno.
Levih, acomodado à direita da mesa, era uma exceção entre os alados.
Conhecido como Amigo dos Homens, pertencia à casta dos
ofanins, a ordem dos anjos protetores, defensores da espécie
mortal. Vagara pelo mundo ajudando em causas humanitárias,
dando alimento espiritual aos desesperados, tentando afastá-los da
perversão. Seu rosto era jovem, de olhos azuis e dentes muito
brancos, que se destacavam na expressão sorridente. Os cabelos
cobriam a testa numa franja grisalha, e os fios cinzentos tornavam
difícil saber se tinha 20, 30 ou 40 anos. A barba da mesma cor
corria rala em volta do queixo, e a falta de bigode revelava uma
constituição delicada. Vestia calça azul, camisa bege e um paletó
verde-musgo, de um tecido tão fino que fazia lembrar um jaleco. O
corpo magro combinava com a pele clara, o nariz arguto e as
bochechas rosadas.
Acomodado à sua frente, Urakin, Punho de Deus, não tinha a mesma
opinião acerca dos homens. Era um querubim, um anjo
guerreiro, e não apreciava toda aquela desordem. Alto e
musculoso, de corpo forte e quadrado, era fácil confundi-lo com
um lutador peso-pesado, ou mesmo com um caminhoneiro malencarado.
A expressão robótica assustava, realçando ainda mais a
cicatriz no supercílio. O pescoço grosso terminava numa face
redonda, de cabelos raspados, orelhas pequenas e cavanhaque
curtíssimo. Usava coturnos, camiseta escura e uma japona marrom,
com o capuz cáqui jogado para trás.
Um grupo de motoristas embriagados começou a cantar o hino de
um clube esportivo. A chuva parou, silenciando os pingos no teto
de fibra. Uma música antiga tocava repetidamente no rádio do bar:
"Can't Take my Eyes off You".
 Então, você é o líder da missão? - perguntou Urakin, com os
olhos fixos em Levih. Sua voz era áspera e ele falava
pausadamente, ainda pouco confortável com a recémmaterializada
forma física, que os celestes chamavam de avatar.
 É o que parece - Levih respondeu, agradável. Olhou sobre as
cabeças, como se procurasse alguém que estava para chegar. - É
curioso. Uma formação nada usual.
 Como? - O comentário não fazia sentido.
 Nossas castas. Um baralho de opostos. Já pensou como isso é
raro?
 Não fui recrutado para pensar - foi a resposta. - O que estamos
esperando?
 O meu sanduíche - mas, ao entender a impaciência do colega,
acrescentou:
 Estou calculando qual seria a melhor rota até o nosso destino.
 Você conseguiu um carro. - Através da janela, podia-se ver um
velho utilitário estacionado num terreno baldio, quase no meio do
mato, a oeste da parada de ônibus. - Já caminha na Haled faz muito
tempo?
 Levih sorriu e, apesar da aparência adulta, tinha algo de
infantil no rosto. Os ofanins são essencialmente bondosos, tão
amáveis que muitas vezes beiram a ingenuidade.
 Algum tempo.
 Um homem de avental amarelado avisou que o sanduíche saíra
da chapa: pão francês com queijo e manteiga. Levih buscou o
prato, voltou à mesa e abriu um guia rodoviário, enquanto enfiava
um canudo na latinha de refrigerante.
 Não sei como aguenta comer essa porcaria - Urakin parecia
enojado.
 A gente se acostuma - Levih retrucou, sem dar muita
importância. Indicou com o dedo um ponto no papel. - Já esteve
aqui?
 Santa Helena? - Era o nome que constava no mapa. - Nunca
ouvi falar.
 Também não. - O ofanim fechou o guia e o arrastou para o
canto da mesa. - Agora, diga-me. Como pode ter acontecido? Dois
celestiais, sendo um deles um arconte, desaparecerem sem deixar
vestígios?
 Essa é a nossa missão?
 Resgatá-los. Por isso viemos. - Bebeu um gole do refresco e deu
uma mordida generosa no pão com queijo. - Kaira, Centelha
Divina, uma ishim mestre na província do fogo, e Zarion, o
querubim que a protegia. Sumiram nesta cercania há dois anos,
talvez um pouco mais.
 E por que só nos mandaram agora?
 Por que você acha? - Levih inclinou o corpo para frente e
sussurrou, como quem partilha um segredo. - Não deveríamos
estar aqui. Eles não deveriam ter estado aqui. Temos uma trégua,
esqueceu?
 Duvido que Gabriel tenha quebrado o armistício. - Ele
confiava em seu comandante. - E o que faremos após encontrá-los?
 Fui orientado a dar prosseguimento à missão original, estejam
eles vivos ou mortos.
 E você sabe o que, ou quem, eles estavam perseguindo?
Levih ia responder, mas se calou. Dois homens com farda da polícia
militar entraram no salão. Seus uniformes eram azul-marinho e
usavam coletes à prova de bala. No cinturão, traziam pistolas de
grosso calibre, rádio, cassetete, algemas e munição para as armas.
Foram direto para a mesa dos anjos, sem ao menos olhar ao redor.
 Eu cuido disso - avisou o Amigo dos Homens, no momento em
que o guarda se aproximou para abordá-lo.
 Boa noite, amigo. - O policial não esperou Levih responder. -
O carro lá fora é seu? - e mostrou o automóvel estacionado no
pátio.
 É de um colega.
 Eu quis dizer isso. - O segundo policial não desgrudava a
atenção de Urakin. - Vai ter que vir comigo.
 Algum problema?
 Nada grave. Preciso checar os documentos. Só queremos
verificar...
 Vamos acabar logo com isso. - O Punho de Deus se levantou.
Levih devorou o resto do sanduíche e os seguiu, limpando os dedos
em guardanapos de papel barato. Estava confiante em resolver o
impasse, afinal a persuasão é uma característica inata da casta. Eles
a usam para provocar reações emocionais, converter espíritos
malignos e conduzir seres humanos ao caminho da redenção.
Urakin continuava em alerta enquanto saíam do restaurante. Os
guardas não o assustavam, mas havia algo de estranho na maneira
como andavam - ele não sabia dizer o que era. E havia um cheiro
desagradável.
Na parte anterior do terreno baldio estava estacionada uma viatura
policial, de portas abertas, bloqueando a saída do utilitário. Ao
volante os aguardava um oficial graduado, exibindo insígnia de
capitão, com a mesma farda de seus companheiros. Enfiada no
coldre, sua pistola não era própria da instituição - era uma SIGSauer
calibre 45 ACP, cromada, com a coronha e o gatilho pretos,
um equipamento caro e bastante incomum. Levih calculou que
tinha 35 anos, talvez um pouco menos. Mas, apesar de ser um
agente da lei, demonstrava expressão de bandido. O corpo era
típico dos militares, com os antebraços especialmente largos. Os
olhos eram negros e sombrios, delineados por sobrancelhas pretas.
Os cabelos, igualmente escuros, estavam parcialmente escondidos
sob a boina. Levantou-se imediatamente ao vê-los chegar. Encarou
os celestes, examinando-os por vários segundos. Arrostou Urakin
num gesto de desafio, para a seguir anunciar, como um juiz que lê
a sentença:
 Este carro foi dado como roubado. Estamos atrás do ladrão.
Onde estão os documentos?
Pelo tom, Levih entendeu que a acusação era séria. Os ofanins não
aprovam a violência, mas ele sabia exatamente o que fazer.
 Capitão, eu e o meu amigo estamos muito cansados - argumentou.
- E temos pressa. Estou certo de que entende isso. Agora, por
que não esquece este mal-entendido e tira a viatura de nosso
caminho? Seria de imensa ajuda, e ficaríamos eternamente
agradecidos.
Normalmente, Levih não teria problemas em persuadir qualquer
homem mortal, mas o agente estava irredutível. Franziu a testa e
pousou a mão sobre a coronha.
 Também temos pressa, companheiro.
Com um instante de diferença, Urakin previu o ataque. Escutou
quando os dois policiais mais atrás sacaram suas armas e decidiu
reagir, como faria qualquer bom soldado. Estendeu a mão e tocou a
maçaneta do utilitário, muito próximo a ele. Puxou a porta com
violência e as dobradiças se partiram, rasgando o metal num
trovejo. No mesmo impulso, transformou a peça em porrete,
golpeando um dos oficiais bem na testa. Antes que o primeiro deles
pudesse disparar, a espinha se quebrou com o choque - o corpo
desabou inerte, esparramado ao lado de um arbusto, quando o
outro guarda puxou o gatilho.
Levih estava paralisado, impressionado demais para reagir. O código
de sua casta o impedia de ferir qualquer criatura, especialmente
seres humanos, mesmo em defesa própria.
Urakin ouviu um estalo e sentiu duas balas lhe atravessarem a carne
- uma entrou pelo ombro e a segunda trespassou o estômago,
feliz- mente longe do coração. Vigoroso, lançou-se à batalha e,
como um urso, agarrou o atirador pelas têmporas, suspendendo-o
com ambas as mãos.
O capitão não estava alheio ao combate, mas preferiu recuar, para
só então puxar a pistola. Por sorte, a espoleta falhou, e, ao ver o
estrago que o querubim provocara, ele saiu correndo, tomando
distância dos anjos.
 Vá pegá-lo! - gritou o Punho de Deus, mas Levih se recusou.
 Pare com isto. É uma ordem! - Ele não tolerava assassinatos.
 Ainda acha que... - Urakin esmigalhou o pescoço - eles são
humanos? - Quando a vítima morreu, ele a largou sobre o solo
para, num movimento automático, remover-lhe o coração.
Reparando mais atentamente, os dois cadáveres eram distintos dos
defuntos comuns. Os corpos começaram a murchar, como se os
órgãos, o sangue e até os ossos estivessem secando. Restou, dali a
poucos segundos, uma mancha de excrementos, borbulhando
dentro de uma casca enegrecida, que foi diminuindo até esfriar.
 Raptores - murmurou o Amigo dos Homens. - Como nos
acharam?
 É o trabalho deles - raciocinou o Punho de Deus.
 Como soube?
Urakin caminhou até a parte posterior da viatura, ainda com as luzes
de alerta piscando. Abriu o porta-malas, rompendo a tranca
com sua força sobre-humana. Três homens jaziam mortos,
amontoados no bagageiro. Suas fardas e sua aparência eram as
mesmas das entidades que os haviam agredido.
 Senti cheiro de carne podre.
 Levih deu uma boa olhada nos policiais falecidos.
 Que diabrura! Eles copiam perfeitamente a forma humana.
 Qualquer forma - Urakin corrigiu. - Já enfrentei alguns deles
antes - fechou o porta-malas. Sua natureza guerreira clamava por
mais ação. - Vamos ficar parados? O chefe deles ainda pode estar
ao nosso alcance.
 Melhor deixarmos que ele fuja - decidiu o ofanim. Era o líder,
por enquanto, - Esse incidente não tem nada a ver com a nossa
missão. Os raptores andam por aí a caçar anjos perdidos. Uma
lástima que nos tenham localizado. Mas não podemos deixar que
contratempos assim nos atrasem.
 Como preferir. - Os querubins são práticos em seus objetivos e
perfeitamente leais.
Urakin respirou fundo e só então notou quanto sagrava. Os tiros
não o matariam, mas o haviam deixado exausto - ele precisava se
alimentar.
 Sabe aquele sanduíche nojento? - continuou o guerreiro,
apoiando a mão no ombro do pequeno Levih. - Acho que vou
aceitar.

Filhos do Éden - Manuscrito Sagrado Dos Malakins


O MANUSCRITO SAGRADO DOS MALAKINS
POUCOS SABEM COMO COMEÇOU. Ou O QUE HAVIA ANTES. NÃo QUE
ISSO importe, realmente. Porque não houve um antes. Aconteceu
em um tempo em que o próprio tempo não existia, e a matéria não
passava de um grão de energia, flutuando na sombra do espaço.
Guerra. Luz e trevas. Lei e ordem. Claro e escuro. Bem e mal.
Sobreveio a explosão. Indescritível. Inimaginável. Ensurdecedora.
O universo se expandiu, lançando fragmentos na negritude,
formando ondas de poeira cósmica, dando origem às dimensões
paralelas. Mundos inteiros foram criados. Estrelas nasceram e
morreram, nebulosas surgiram nos oceanos de plasma. Galáxias se
condensaram.
Por bilhões de anos, os alados vagaram sozinhos, intocáveis no santuário
infinito. E, quando o sexto dia terminou, Deus estava
orgulhoso de seu trabalho. De todas as maravilhas, a espécie
humana foi a que ele mais adorou: sua criação podia aprender,
evoluir e amar.
Yahweh partiu para o descanso do sétimo dia e deixou aos cinco
arcanjos a tarefa de comandar os celestes, reger o paraíso e servir à
humanidade, sem interferir em seu curso. Mas, inflados de ciúme e
luxúria, os primogênitos invejaram a raça mortal. Miguel, o
Príncipe dos Anjos, decidiu que os homens não eram herdeiros
dignos de Deus e resolveu tomar a terra de assalto. Enviou
assassinos, fomentou cataclismos, explodiu vulcões, provocou
terremotos e congelou o planeta.
O paraíso se dividiu. A primeira revolta foi esmagada, e os conspiradores,
expulsos. A tensão entre os gigantes cresceu, culminando
numa batalha devastadora, que secionou para sempre as hostes
divinas. Lúcifer, o Arcanjo Sombrio, desafiou a autoridade do
onipotente Miguel, atraindo um terço das legiões para sua causa.
Mas suas ambições eram igualmente malignas e, vencidos, os anjos
caídos foram atirados ao inferno, onde aguardam o momento
oportuno para completar sua vingança.
Milênios mais tarde, os focos da rebelião, sufocados no princípio,
se reacenderiam numa nova chama. O arcanjo Gabriel, servo mais
leal do Príncipe Celeste, recebeu a missão de descer à Haled para
planejar uma nova catástrofe. Mas, em seus corpos terrenos, os
anjos são vulneráveis aos sentimentos carnais. Pela primeira vez,
ele provou o calor da alma humana e entendeu o amor que sentia
por Deus. Repudiou as ordens do irmão e assim começou uma nova
guerra, a guerra civil, a eterna disputa pelo paraíso, que persiste até
hoje.
Reunidos no Primeiro Céu, Gabriel e os exércitos rebeldes
iniciaram uma gigantesca campanha contra as forças legalistas,
estacionadas na quinta camada. O Quarto Céu, Acheron,
transformou-se numa violenta zona de combate, onde os
querubins lutam dia e noite há mais de dois mil anos.
Quando os revoltosos avançaram, derrubando fortalezas e
ganhando posição, Miguel, temeroso de perder o trono, ordenou o
Haniah, o Retorno, determinando que todos os seus aliados que
atuavam ou estivessem no plano material regressassem
imediatamente. Com o contingente inimigo aumentando, Gabriel
fez o mesmo, e a Haled foi abandonada. Os vórtices de acesso às
dimensões superiores foram fechados, restando alguns poucos,
guardados por poderosos vigias.
A casta dos elohins, cuja natureza é viver entre os homens, obteve
permissão especial para continuar no mundo físico, assim como
outros desgarrados, que se recusaram a voltar. A única condição
era que não interviessem no rumo da guerra e estivessem prontos
para servir a seus arcanjos quando o dever os chamasse.
Enquanto o paraíso queima num embate de sangue e espadas, os
dois lados estabeleceram um armistício na terra - uma trégua frágil
e delicada, que pode desmoronar a qualquer instante.
Isolada no Sexto Céu, a ordem dos malakins traçou suas previsões.
Aquela não seria mais uma guerra. Havia começado.
Era o princípio do fim.

Filhos Do Édem - Apresentação


APRESENTAÇÃO
Uma mensagem aos leitores de A Batalha do Apocalipse
NA MADRUGADA DO DIA 9 DE JULHO, DESPERTEI AGITADO. NÃO
CONSEGUIA voltar a dormir, preocupado com o roteiro ainda
pendente da minha viagem de férias, marcada para dali a duas
semanas. Depois de um ano e meio de privações, e após ter
entregado à editora os manuscritos finais de Filhos do Éden -
Herdeiros de Atlântida, resolvi tirar um curto período de descanso
na França, onde pretendia iniciar as pesquisas para o segundo
volume desta série, Anjos da morte.
Vencido pela insônia, tomei o elevador e caminhei algumas
quadras até a praia de Copacabana, para apreciar um espetáculo
que há tempos não via - o nascer do sol. Sentado nas areias
brancas, divaguei sobre todas as coisas que aconteceram desde o
primeiro lançamento de A Batalha do Apocalipse.
O sucesso do livro, tão improvável quanto a perspectiva de uma esfera
incandescente vir a abrigar formas de vida, deve-se
inegavelmente aos anjos - não aos alados da fantasia, tampouco às
figuras mitológicas, mas às pessoas comuns que, sem esperar nada
em troca, divulgaram a obra entre os colegas de trabalho, os
amigos da faculdade, os companheiros de escola, os familiares. O
poder desses celestiais é magnífico, e, se A Batalha do Apocalipse
tem um herói, são os leitores, os verdadeiros responsáveis por fazer
os querubins alçarem vôos mais elevados.
A repercussão das caminhadas de Ablon lançou às minhas mãos
um dilema. Embora apaixonado pelos antigos personagens, algo me
dizia que era preciso renová-los, que o retorno de Orion, Shamira
ou Amael, neste momento, seria uma jogada incoerente e
oportunista - a trajetória deles se encerra em A Batalha, não seria
justo desgastá-los.
O cenário apresentado, no entanto, ainda poderia gerar permutações.
Por ser um renegado, Ablon esteve por séculos alheio à
política celeste, e esse era o ponto que eu queria explorar. Como se
relacionam as diferentes castas no céu? Quem são os agentes na
linha de frente? Qual é o reflexo da guerra civil na vida dos seres
humanos? Quais são os reinos que se escondem além do tecido da
realidade, aos quais o Primeiro General era incapaz de se
transportar?
No fim das contas, a decisão de principiar uma nova saga, em vez
de simplesmente reciclar os elementos do livro anterior, foi
espontânea, um traço, a meu ver, essencial para que qualquer
história dê certo. A ideia era expandir esse "universo", abrindo um
novo leque de possibilidades, de novas tramas e acontecimentos.
Portanto, ainda que Filhos do Éden guarde semelhanças com o
enredo pregresso, ele constitui uma obra única, que propõe
questões mais humanas e apresenta heróis mais vulgares, menos
infalíveis.
Herdeiros de Atlântida é o primeiro tomo de uma série, com cada
parte encerrando uma aventura, uma missão. Velhas perguntas
serão respondidas, à medida que outras surgirão, para então se
fecharem à conclusão do último ato.
Este livro é, sobretudo, uma homenagem aos antigos leitores, um
romance livre de oportunismos, que respeita a cronologia original,
ao passo que introduz novos conceitos. É, ainda, um tributo aos
personagens clássicos, uma forma de dar a eles o descanso devido e
ao mesmo tempo guardá-los para sempre em nossas memórias.
Olhei para o céu. Ao leste, o anil do crepúsculo havia assumido
tons carmesins, num incrível espetáculo de nuvens alaranjadas. O
sol havia nascido.
Era o início de um novo dia.
EDUARDO SPOHR, outono de 2011